segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A terra de Calabar

A origem é lendária. Dizem que antes da chegada de Cristóvão Lins para assumir as terras que ganhara da Coroa, às margens do Rio Manguaba, um velho calvo morava nas redondezas. O Porto do Calvo ficou conhecido desde então. Quando a povoação se consolidou, após a criação dos primeiros engenhos, foi elevada à vila com o nome de Bom Sucesso, em regozijo à vitória obtida contra os holandeses. Mais adiante, foi denominada Santo Antônio dos Quatro Rios, devido aos cursos d`água que a rodeiam. Todavia, a denominação original prevaleceu arraigada que estava no coração de sua gente. História - Quem quer que passe pela estrada litorânea que liga Alagoas a Pernambuco, viajando de Maceió, na região balizada por morros e rios, antes de Japaratinga e Maragogi, avista uma cidade que imediatamente traz recordações de grandes acontecimentos históricos. Desde a fase da expansão dos engenhos, passando pelo período de domínio holandês, ela esteve indelevelmente ligada à história do Nordeste e do Brasil. Parecerá ao viajante ouvir ruídos e vozes distantes, falas estranhas e ininteligíveis de índios, portugueses, negros, espanhóis e flamengos com seus desejos, medos e ambições. Tantos personagens, tantas emoções, que essa pessoa será levada a concluir que ali há um túnel do tempo, outra dimensão ou um museu invisível. Na bandeira e no brasão de Alagoas, somente ela e mais duas cidades têm o privilégio de ter o seu escudo colocado em realce. Herança da engenharia heráldica holandesa, o primitivo brasão foi idealizado por Maurício de Nassau, que reconheceu a sua importância e destacou os três morros postos em faixa, típico de sua formação montanhosa. Para diferenciá-los do antigo símbolo holandês, nossa bandeira e brasão atual trazem quatro faixas ondadas de azul que representam os quatros rios dali: o Tapamundé, o Moicatá, o Comandatuba e o Manguaba, alusão ao antigo nome da sesmaria doada a Antônio de Barros Pimentel, que era chamada de Santo Antônio dos Quatro Rios. Renomada por sua antigüidade e por feitos imorredouros ao longo de sua trajetória colonial, a segunda cidade mais antiga do estado edificou-se a partir de uma sociedade patriarcal voltada para a cultura da cana-de-açúcar, com a hegemonia de um patriciado rural sustentado pelo trabalho escravo. Avulta nela a grande propriedade, que tinha o engenho bangüê como centro e a capela e a senzala como elementos indispensáveis ao projeto de colonização, implantado de forma autoritária para os índios que viviam no local antes da chegada dos portugueses e dos negros africanos trazidos à força de sua distante terra. Posto intermediário onde se detinham os que vinham da sede da capitania em demanda a Alagoas do Sul e ao seu ponto extremo, Penedo do São Francisco, tinha Porto Calvo base populacional expressiva de mulatos, resultante dos cruzamentos entre os brancos senhoriais e os negros mantidos em servidão nos numerosos bangüês existentes em sua área geográfica. Calabar, ícone da região e uma das figuras mais controvertidas da história brasileira, é um exemplo de mulato, filho de senhor de engenho e escravo, o que explica muitos fatos de sua vida, seu comportamento e o desejo de independência e respeito pessoal. Duarte Coelho já teria percebido o valor estratégico da localidade quando percorreu sua capitania costa abaixo, “entrando nos portos todos de seus domínios”. As diversas tentativas de estabelecer um posto avançado de Olinda só se concretizariam quando Cristóvão Lins, a mando de Jerônimo de Albuquerque, novo donatário, substituindo sua irmã, que falecera, percorreu o litoral chefiando uma bandeira. Esta bandeira combateu os índios, resistentes encarniçados ao projeto de colonização, e lhes tomaria as terras para o plantio de cana-de-açúcar. Como prêmio ao sucesso de sua cruzada, Cristóvão Lins recebeu a vasta sesmaria que ia da foz do Manguaba até o cabo de Santo Agostinho. Casado com D. Adriana de Holanda, o nobre florentino fez prosperar a sesmaria e edificou sete engenhos e uma capela, desenvolvendo a agricultura, tornando-se o pioneiro da indústria açucareira, após expulsar os potiguaras. Recebeu o título de alcaide-mor. Iniciara-se a colonização. Dirceu Lindoso opina que, embora ela seja a segunda povoação mais antiga, depois de Penedo foi, no entanto, a primeira comunidade política estabelecida na parte austral de Pernambuco e que “de uma fortaleza militar, ela evoluiu para uma cidade defendida e depois para o centro político principal da Alagoas Boreal”. A ocupação da colina, segundo ele, foi antes um ato militar. Se o patriarca Cristóvão Lins ficou para estabelecer as bases do povoamento, responsável pelos primeiros engenhos que fizeram florescer o valioso burgo, a partir de 1560 coube ao seu neto, o jovem Cristóvão Lins de Vasconcelos, se eternizar quando das lutas de restauração contra os holandeses, liderou seus habitantes contra os invasores dos Países-Baixos. A consolidação do novo centro econômico, político e militar da capitania foi ameaçada por lutas e revoltas ao longo do tempo, uma delas nesse período.





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