segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O filme Rua das Árvores e a destruição da memória de Maceió


 O historiador inveja as suas fontes orais. O idoso é sério concorrente de quem se arvora a reproduzir em texto um tempo social pretérito. Essas duas ideias se e...mpoleiraram na minha mente quando vi o belo curta-metragem Rua das Árvores, da alagoana Alice Jardim. O filme foca numa casa abandonada da Rua Ladislau Neto (botânico alagoano), mais conhecida na Maceió do presente como Rua das Árvores, e nas memórias de uma moradora. Alice apresenta detalhes da residência, usando vários tipos de enquadramento e luz, enquanto a idosa narra, sem aparecer, suas experiências com a casa, a família, a cidade e a vida. A forma narrativa e seu conteúdo causam profunda catarse no expectador, pois milhares de maceioenses e habitantes de outras urbes do munto têm contido na garganta um grito em defesa da memória social, arquitetônica e urbanística das cidades.

As singularidades do capitalismo e da modernidade na capital alagoana elevaram ao poder, a partir da segunda metade dos anos 1960, uma elite que tem imposto enorme desrespeito aos edifícios e ao desenho urbanístico do passado, maculando, de modo irreversível, a memória urbana de gerações. A memória precisa da materialidade dos lugares, não se conserva e desenvolve apenas a partir de si mesma, como subjetividade pura e isolada do mudo exterior. O espírito precisa do corpo, o camponês anseia pela terra, o cidadão deseja a polis. Em Maceió, há décadas um pai não consegue mostrar ao filho nenhum dos lugares de sua infância e juventude, pois já não existem ou foram completamente descaracterizados. Os suportes arquitetônicos da memória, como praças, edifícios e monumentos, são apenas matéria, não sofrem, mas seu abandono representa o desprezo pela vivência de gerações de seres humanos palpitantes de vida, envoltos em sentimentos e sonhos.

O filme de Alice denuncia sutilmente o abandono dos lugares e a falta de continuidade arquitetônica e urbanística de Maceió nas últimas quatro décadas. Mostra que a arquitetura da cidade não transita, planejadamente, de um estilo mais antigo para um estilo mais contemporâneo. A substituição é feita aleatoriamente e de maneira abrupta, a partir da negação radical do passado. Apenas sobrevive o que é custoso derrubar e pode ser devidamente escondido por fachadas modernosas, como se pode ver nos prédios das lojas do Centro. Este processo é tão generalizado que transforma a cidade num labirinto, pois impede a continuidade dos marcos tomados como pontos de referências espaciais pelos habitantes.

Pelo olhar de Alice, vemos as camadas de tempo e a justaposição de tecnologias domésticas no interior da casa. As janelas fechadas para sempre. Um interruptor do início dos anos 1980. Gambiarras. Ladrilhos de várias épocas. O traço à caneta na parede da cozinha marcando a altura de uma criança.

Dei-nos uma etnografia do cotidiano ou apenas informações detalhadas sobre objetos comuns e poderemos deduzir a indústria, o comércio, a subjetividade coletiva e o poder político. O Capital, de Marx, trás centenas de descrições de fatos cotidianos em suas notas. Uma historiografia da vida comum é uma historiografia da totalidade, desde que se crie um link entre as duas dimensões. A narrativa da moradora, explorada na medida adequada no filme, costura o espólio apresentado e lhe dá sentido. O interior da casa fora montado com objetos importados da Europa. Aquelas paredes foram imersas nos valores morais e estéticos da burguesia. O avô era um rico comerciante e, talvez por isso, não convivia com os netos. A avó, a partir de um recalque surgido da opressão de gênero da qual era vítima, dissera a filha que esta nunca moraria ali quando adulta. A filha herdou a residência e deu continuidade à família debaixo daquele teto.

Este e outros trabalhos de Alice Jardim buscam salvar Maceió do esquecimento e da banalidade. O cotidiano e a imprensa diária apequenam tudo ao nosso redor. Diferente de Recife ou Salvador, Maceió não aparece poética, amada e central na subjetividade dos seus moradores. Só a arte e a ciência são capazes de mostrar uma cidade na sua grandeza humana aos seus próprios habitantes. Pela mão da jovem e sensível cineasta, passamos a ver as singularidades da nossa urbe articuladas com as dimensões universais do fenômeno urbano e, desse modo, superamos, a um só tempo, o bairrismo e a autodepreciação.
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por Golbery Lessa

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