quarta-feira, 1 de março de 2017

Aqui Maceió começou a ser capital

O bairro de Jaraguá é a própria história de Maceió. Naquele pequeno trecho encravado entre o mar, o Poço e o Centro da cidade, surgiram os primeiros surtos de desenvolvimento da então vila, que cresceu tanto e superou a capital da Capitania, a então cidade de Alagoas, atual Marechal Deodoro, provocando a luta da transferência da capital para Maceió, onde já residia o governador e sediava as principais partições publicas. Esse desenvolvimento do bairro deve-se ao seu porto, que transformou o local num imenso comercio com negócios de todos os rumos.   Esse desenvolvimento do bairro deve-se ao seu porto, que transformou o local num imenso comercio com negócios de todos os rumos.
Mas Jaraguá surgiu antes mesmo da povoação de Maceió, originada de um engenho de açúcar de propriedade do coronel Apolinário Fernandes Padilha, no local onde hoje é a Praça Dom Pedro II. Aldeia de pescadores foi logo chamando a atenção de quem passava pelo caminho, margeando o mar.
  Quando da chegada do primeiro governador da Alagoas, Sebastião Francisco de Melo e Povoas, desembarcando no porto de Jaraguá, a fama do arrebalde aumentou, projetando-se um lugar de futuro promissor. Naquela época (1818), já existiam algumas casas e a igreja de Nossa Senhora Mãe do Povo, construída pelo português Antonio Martins. Depois foram chegando novos investidores, que se instalaram no novo bairro: José Gomes de Amorim e seus irmãos Joaquim e Antonio, que previam o rápido crescimento do lugar.
   Na verdade, graças à proximidade do ancoradouro, Jaraguá se tornou aos poucos um centro comercial de grande importância, sendo ocupados por bonitos sobrados, a partir da segunda metade do século passado. A arquitetura da época foi sendo aos poucos modificada. Mas o projeto de revitalização, que será executado pela prefeitura, retornará o esplendor do século XIX. 
Receita Federal é um exemplo de preservação
 Quando era delegado da Receita Federal em Alagoas, o paraibano Vicente Madruga conseguiu conscientizar a direção daquele órgão a realizar os trabalhos de restauração do imponente prédio, que vinha se deteriorando com o passar do tempo. Conseguiu. Tudo foi restaurado obedecendo o projeto original, mas colocando alguns toques de modernidade, sem que tirasse o padrão arquitetônico. A fachada permaneceu quando de construção, assim como as salas, a parte externa que se volta para o mar e alguns móveis antigos, que foram restaurados.
   A delegacia da Receita Federal emoldura o conjunto arquitetônico da antiga rua Alfândega (atual Sá e Albuquerque). Se os visinhos tivessem sido preservados, o projeto de revitalização do bairro teria um custo bem menor. Ao seu lado, foi derrubado um casarão, para a construção para a moderna construção do Bradesco. Em frente, a sede da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana) também é uma arquitetura moderna.    A visão cultural de Vicente Madruga bem que poderia ter sido seguida por muitos dos empresários que possuem prédios no bairro. Poucos mantêm seus sobrados intactos. Os escritórios das usinas Leão, Sinimbu e Santo Antônio estão intactos. Mas a maioria dos velhos sobrados ou foi derrubada ou teve suas fachadas descaracterizadas.

Bairro é tomado pelo comércio
 Até a primeira metade do atual século, o comercio era atacadista e varejista. Jaraguá disputava com o Centro a preferência dos consumidores. Detinha grandes lojas de tecidos, chapéus, sapatarias, farmácias e outros estabelecimentos comerciais. Mas o seu forte mesmo sempre foi a parte atacadista, por ser um bairro portuário. Ainda existiam muitas residências, ocupadas, principalmente, por comerciantes, bancários funcionários públicos. O Banco do Brasil e o Banco de Londres, entre outros, mantinham agencias naquele bairro, para atender a grande clientela. Hoje, ainda existem agencias do próprio Banco do Brasil, além do Bradesco e Produban.
  Moradores de vários bairros da cidade de bonde até o Jaraguá para fazer as compras. Depois, o local foi sendo ocupado casas de prostituição, e os consumidores “fugiram”, optando mesmo pelo Centro com mais lojas de todos os ramos do comércio.
A Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, que durante muito tempo era bastante freqüentada pela comunidade católica do bairro, passou alguns anos fechada por falta de fiéis, deteriorando-se. Mas recentemente, com ajuda da comunidade (mínima) e de outro católicos, ressurgiu, restaurou-se, e já recebe muitos freqüentadores.  As antigas ruas residenciais são tomadas por casas de comércio, escritórios de prestação de serviços, consultórios médicos e outras atividades produtivas. Ruas como Uruguai, Silvério Jorge, Minas Gerais, Praça Rayol e outras detêm poucos moradores. E a tendência é esse comércio se ampliar mais ainda com o projeto de revitalização, principalmente no que se refere ao ramo de lazer e cultura.

Saudosistas lembram a “zona”
   O taxista José Antonio de Souza, morador do Poço, é daquele que não esquece as noitadas na “zona” de Jaraguá. Como morava próximo, frequentava as varias boates e bares do bairro, que detinha toda a zona do baixo meretrício da cidade, atendendo aos Maceioenses, visitantes de outras cidades, e, principalmente, aos marinheiros. Tinha boates para ricos e para pobres. A dos pobres ficava no chamado “Duque de Caxias”, enquanto a Tabariz (Mossoró) e outras famosas ocupavam os sobrados da antiga rua da Alfândega (Sá e Albuquerque). José Antonio trabalhava como comerciário no Centro, e nas noites de sábado frequentava a zona do Duque de Caxias. Cada “zona” tinha um bar, com música e os quartos para a hora de sexo. Sem banheiro, cada quarto dispunha de uma bacia com água e uma toalha. O pagamento era feito logo depois do “serviço” feito. A prostituta ficava com uma pequena parte e dava o restante ao dono da zona. Nas boates mais luxuosas, os frequentadores gostavam mais, porém tinham à disposição bonitas mulheres, cheirosas e bem vestidas, que consumiam bebidas mais caras e garantiam um quarto com todo luxo. Nos fins de semana, fervilhava de gente por todos os lados do bairro. “Filhinhos de papai” desfilavam com seus carros nos anos 50 e 60 pelas ruas de Jaraguá, estacionavam na porta das boates e passavam suas noitadas ao som de boleros, tuiwts e das músicas da Jovem Guarda. Tinha aqueles que conseguiam uma prostituta exclusiva. Surgiam constantes confusões, quando ela atendia a outros clientes. Mas a policia estava sempre por perto, para amenizar a briga.

    A transferência da “zona” de Jaraguá para o Tabuleiro do Martins recebeu o protesto dos boêmios, que reclamavam da distancia. O bairro portuário foi perdendo seu movimento e entrou em decadência. Ressurge agora com a perspectiva de se torna o mais novo ponto turístico, com a instalação de bares, restaurantes, galerias de arte, cinema e outras atrações.

Publicado em O JORNAL, Maceió, domingo,  20 de outubro de 1996.
Este texto é original como  publicado na época 


                                                                                 http://www.bairrosdemaceio.net

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