quinta-feira, 3 de julho de 2014

As Salvações, O Governo de Clodoaldo da Fonseca.



O Governo de Hermes da Fonseca representava a volta do fator militar para a cena política. A precariedade de sua gestão já é sentida durante a campanha eleitoral, diante da dificuldade de harmonizar os interesses das lideranças dos Estados maiores, seus grandes eleitores. Dispersada a sua base, após a eleição, devido aos interesses antagônicos que representavam, Hermes procurou isolar-se com seu grupo de caserna. Não possuindo raízes na política tradicional, como seus antecessores civis fragilizados o antigo pacto imaginado por Campos Sales, viu a saída para sua sustentação na indicação de representantes seus nas unidades federativas, o que implicava na derrubada dos donos do poder estadual, daí surgindo à figura das Salvações, encarnados em militares de prestígio, que assumiriam sob a bandeira de derrubadores das oligarquias e dos salvadores das instituições republicanas. O movimento propagou-se por todo o país, principalmente na região norte, onde as oposições locais, eternamente alijadas do poder, vislumbraram a chegada do seu dia D.
O Partido Democrata, assim, que trabalhava com candidaturas simbólicas, como a de Clementino do Monte, ao assistir à bem sucedida campanha do general Dantas Barreto, ministro da Guerra, derrubando o poderoso oligarca Rosa e Silva, em Pernambuco, tenta aliciar o coronel Clodoaldo da Fonseca, chefe da Casa Militar dó Presidência da República, para ser o Salvador em Alagoas. Euclides não se considerava peça vencida; aliás, não admitia sequer chefiar uma oligarquia. Procurou fortalecer-se junto ao senador Pinheiro Machado, grande chefe político no Rio de Janeiro, e ignorar os alaridos dos opositores. Mas ele subestimara a extensão da crise que se instalava e o descontentamento provocado pelo longo domínio que exercera no Estado. Surgem nos bairros da capital, insuflados. Por vigilantes adversários, com características de sans-culotte de 1789. Cresce a força da oposição que agora envolve jornalistas, estudantes, bacharéis, artistas, até empresários como Delmiro Gouveia que, unidos no vigor antigovernamental e antioligárquico, defendem suas ambições junto com as promessas de mudança. Podemos afirmar que houve o início de um estalido socialO fato de Clodoaldo ser oficial superior, primo do Presidente da República e seu Ministro, filho de Pedro Paulino e pertencer à instituição militar que quer resgatar os ideais republicanos, transforma-se numa arma poderosa para a oposição. Concentrações, comícios diários, críticas demolidoras na imprensa, boletins acusadores distribuídos à população e a criação da Liga dos Republicanos Combatentes, sociedade carbonária, verdadeiro grupo paramilitar radical, chefiada por um combatente de canudos, o cabo Manoel da Paz, transformam a campanha ante Euclides numa verdadeira guerra. Um estado de sublevação popular, com uma perseguição aos lebas, assim chamados os partidários dos Maltas, a invasão da casa do intendente da Capital, os apupos e a agressão ás autoridades e a conclamação ao povo a não mais pagar impostos-, num gesto de desobediência civil. Até a guarda palaciana é desarmada e o Palácio dos Martírios invadido, tendo o Chefe do Executivo que sair para a capital pernambucana buscando auxílio de Dantas Barreto, seu antigo amigo, que agora não lhe dá cobertura, pois era também um Salvador. Clodoaldo, que, a princípio relutava, finalmente atende a convocação de Femandes Lima e recusa a solução conciliadora do Catete, imaginada por Pinheiro Machado com aval de Hermes, em ser ele o candidato do próprio Euclides Malta á sua sucessão. Com a sua concordância, rompe das hostes oposicionistas, como um vulcão, a campanha pró-Clodoaldo. Três fatos foram decisivos para os partidários da renovação republicana. O primeiro foi o quebra-quebra dos terreiros de xangô ocorrido em 7 de fevereiro de 1912, comandado pela Liga dos Combatentes. Ardiloso plano político onde, a pretexto de que Euclides Malta e seus correligionários do Partido Republicano Conservador afrontavam a sociedade, protegendo a prática do candomblé, a oposição acusou os euclidistas da prática de feitiçaria, invadiu e depredou os terreiros, jogando contra eles a população e, principalmente, a poderosa opinião da Igreja e do segmento social mais influente.
 Os outros episódios que definiram a vitória dos salvacionistas, já com seus adversários com a autoridade reduzida a fiapos, foi o desembarque de Euclides vindo do Rio sob a proteção das forças federais, com o comércio fechado e muitos tumultos populares durante o trajeto aos Martírios e finalmente, a manifestação gigantesca contra o governo, que redundou em tragédia com vários feridos e as mortes do Secretário do Interior, Tenente Branyner, e o jovem poeta Bráulio Cavalcante.


A Capital foi palco de distúrbios e a própria força federal foi impotente para conter a revolta e recolheu-se. Termina o período euclidiano. Realizadas as eleições os candidatos oposicionistas foram vencedores, sendo Clodoaldo da Fonseca e Fernandes Lima eleito,  sem competidores, pois os situacionistas não tinham candidatos naquela altura, com um governo de emergência presidindo as eleições. Doce engano de quem imaginava que a era das oligarquias acabara. O governo Clodoaldo era um período de transição. Há uma reciclagem de atores, exatamente como foi feito na passagem do regime monárquico para o republicano. O governador eleito nutria pretensões de candidatar-se á presidência da República, repetindo o sucesso de seus familiares, Deodoro e Hermes. Homem de hábitos cosmopolitas, pois morou muitos anos na Europa, como conselheiro militar do Brasil.  Clodoaldo preocupou-se em humanizar a terra de seus pais, criando um merca do de flores no centro do comércio e priorizando o setor educacional, sendo de sua época o Grupo Escolar Tomás Espíndola. Criou bandas de músicas e auxiliou grupos teatrais, reorganizou o sistema de segurança, criando uma guarda civil, e o ponto alto de sua gestão foi à instituição de um serviço de assistência médica pública, denominada Socorro Médico de Urgência, inclusive com transporte para enfermos ou acidentados. Talvez se tivesse menos preocupado com seu projeto presidencial, pudesse ter feito uma gestão mais profícua. Repetiu erros de seu pai, Pedro Paulino, e deixou seu vice-governador com poderes excessivos. Mesmo assim, interferiu em inúmeras ocasiões para evitar perseguições e vindita contra os antigos ocupantes do poder. Tinha um relacionamento respeitoso com seus adversários, o que motivava o desagrado de seus correligionários. Apreciando mais a parte administrativa, deixava as questões políticas com Femandes Lima, o grande estrategista da sua vitória. Com o vice-governador, os proprietários do norte açucareiro alcançam a liderança do sistema, anteriormente ocupado pelos proprietários de terras do sul. Na verdade, a estrutura oligárquica muda de mãos. Em linhas gerais a estrutura mantém-se de pé. As mudanças são cosméticas. As alianças municipais e regionais são as mesmas. Nada muda na essência.




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